As bets podem afetar a herança? Impactos na sucessão

Poucos fenômenos cresceram tão rapidamente no Brasil quanto as plataformas de apostas esportivas.

Em poucos anos, as chamadas bets passaram de um nicho para um mercado bilionário. Estão nas transmissões de futebol, patrocinam clubes, ocupam espaços publicitários em horário nobre, contratam influenciadores e fazem parte da rotina de milhões de brasileiros.

A regulamentação do setor, especialmente após a publicação da Lei nº 14.790/2023, trouxe maior segurança jurídica para a exploração dessa atividade. A legalização, entretanto, não elimina uma questão importante: toda atividade lícita pode produzir consequências patrimoniais relevantes quando utilizada sem responsabilidade.

É justamente nesse ponto que o Direito passa a olhar para as apostas sob outra perspectiva.

Como advogada atuante nas áreas de Direito de Família, Sucessões e Direito Agrário, percebo que as dúvidas deixaram de ser apenas sobre a legalidade das plataformas. Cada vez mais surgem questionamentos relacionados ao patrimônio das famílias.

  • O dinheiro perdido em apostas reduz a herança?
  • Os herdeiros podem contestar valores gastos pelo falecido?
  • Como ficam empresas familiares, fazendas e patrimônios construídos ao longo de décadas quando parte dos recursos desaparece em apostas sucessivas?

São perguntas recentes, mas extremamente relevantes. E a tendência é que se tornem cada vez mais frequentes.


O patrimônio começa a ser protegido muito antes do inventário

Existe uma ideia equivocada de que a sucessão patrimonial começa com a morte.

Na realidade, ela começa muito antes.

O inventário apenas organiza juridicamente aquilo que restou do patrimônio. As decisões financeiras tomadas durante toda uma vida são as verdadeiras responsáveis pelo tamanho da herança que será transmitida aos sucessores.

É por isso que o Direito das Sucessões não pode ser analisado isoladamente. Ele conversa com o Direito de Família, com o Direito Empresarial, com o Direito Agrário e, principalmente, com o comportamento humano.

Nenhum patrimônio desaparece de um dia para o outro. Ele costuma ser reduzido por pequenas decisões repetidas ao longo do tempo.

As apostas esportivas podem se tornar uma dessas decisões quando deixam de representar entretenimento e passam a ocupar espaço significativo na vida financeira de uma pessoa.

A questão, portanto, não é moral. Também não é ideológica. É patrimonial. E patrimônio é uma matéria que interessa diretamente ao Direito.


Apostar não é investir

Uma das maiores distorções produzidas pela publicidade das bets é aproximar, ainda que indiretamente, a ideia de aposta da ideia de investimento.

São conceitos completamente diferentes.

Investimentos buscam retorno econômico mediante critérios técnicos, análise de risco, planejamento e gestão patrimonial.

A aposta, por sua própria natureza, depende de eventos futuros incertos e da aceitação consciente do risco de perda.

Essa distinção parece óbvia para um profissional do mercado financeiro. Nem sempre é para quem consome diariamente conteúdos que exibem apenas histórias de ganhos extraordinários.

A repetição constante dessas narrativas produz um fenômeno conhecido pela psicologia comportamental: aquilo que vemos repetidamente passa a parecer mais comum, mais provável e menos arriscado do que realmente é.

Não é coincidência que a publicidade das apostas tenha despertado preocupação em diversos países. A discussão deixou de ser apenas econômica. Hoje ela envolve saúde pública, proteção do consumidor, responsabilidade social e educação financeira.

Sob a ótica jurídica, entretanto, existe outra consequência que ainda recebe pouca atenção: a preservação do patrimônio familiar.


A herança não é formada apenas por aquilo que alguém possui. Ela também é influenciada por aquilo que deixou de preservar.

Essa talvez seja uma das reflexões mais importantes do Direito das Sucessões.

Quando uma pessoa constrói patrimônio durante quarenta anos, cada decisão financeira interfere diretamente naquilo que será transmitido às próximas gerações:

  • Uma fazenda.
  • Uma empresa.
  • Um imóvel.
  • Uma carteira de investimentos.
  • Participações societárias.

Tudo isso pode levar décadas para ser construído. Mas pode ser significativamente reduzido em poucos anos quando não existe gestão responsável do patrimônio.

É justamente por isso que o planejamento sucessório nunca teve tanta importância. Ele não serve apenas para reduzir impostos ou evitar conflitos entre herdeiros. Seu verdadeiro objetivo é preservar o patrimônio antes que ele precise ser partilhado.


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Priscila Maura

Tradição aliada à inovação

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