Toda eliminação da Seleção Brasileira produz o mesmo fenômeno.
Antes mesmo de o estádio esvaziar, começa a procura por um culpado. O treinador deveria ter feito outra substituição. Um atacante não poderia ter desperdiçado aquela chance. Um dirigente precisa deixar o cargo. Em poucas horas, um acontecimento complexo é reduzido à atuação de uma única pessoa.
É uma reação emocional. Mas não é, necessariamente, uma reação racional.
Talvez a maior contribuição do Direito para esse debate seja justamente desconfiar das explicações fáceis.
O Direito parte de uma premissa simples: consequências relevantes raramente decorrem de um único fato. Antes de atribuir responsabilidade, é preciso compreender a sucessão de decisões que tornou aquele resultado possível. Em outras palavras, o desfecho quase nunca nasce no último capítulo da história.
O futebol não foge dessa lógica.
A eliminação do Brasil não começou no jogo. Ela começou muito antes de a bola rolar.
Começou nas decisões que ninguém viu.
O que o Direito Desportivo realmente protege?
Existe um equívoco comum de imaginar que o Direito Desportivo serve apenas para julgar expulsões, casos de doping ou conflitos entre clubes e atletas.
Essa é apenas a sua face mais visível.
Na essência, o Direito Desportivo protege algo muito maior: as instituições que sustentam o esporte.
Ele estabelece regras de governança, disciplina competições, organiza responsabilidades, assegura a integridade dos campeonatos, dá segurança às relações jurídicas e busca garantir que o resultado em campo seja fruto da competição, e não da desorganização.
Essa talvez seja sua maior virtude: cuidar daquilo que quase ninguém percebe, mas do qual todos dependem.
Nenhuma instituição forte nasce da improvisação
O futebol costuma ser tratado como um universo movido exclusivamente pelo talento.
Não é.
O talento ganha partidas. Instituições bem construídas aumentam as chances de ganhar campeonatos.
Planejamento, continuidade, critérios técnicos, estabilidade administrativa, formação de atletas, investimento em ciência do esporte, profissionalização da gestão e mecanismos de governança não aparecem no placar. Ainda assim, influenciam cada placar.
É exatamente por isso que organizações sólidas costumam permanecer competitivas durante décadas, enquanto outras alternam momentos de euforia e longos períodos de reconstrução.
Essa lógica vale para empresas, universidades, hospitais, órgãos públicos e também para entidades esportivas.
O Direito conhece bem essa realidade porque convive diariamente com os efeitos da boa — e da má — gestão.
A CBF é uma entidade privada. Mas isso encerra a discussão?
Não.
A Confederação Brasileira de Futebol possui natureza jurídica privada e autonomia para administrar o futebol nacional.
Essa autonomia, contudo, jamais significou imunidade ao debate público.
Quanto maior a relevância econômica, social e institucional de uma organização, maior também é a expectativa de transparência, planejamento, responsabilidade administrativa e boas práticas de governança.
Não porque a lei exija perfeição.
Mas porque instituições fortes não se sustentam apenas pela legitimidade formal de sua existência. Sustentam-se, sobretudo, pela confiança que conseguem preservar ao longo do tempo.
Confiança é um patrimônio institucional. E patrimônios também podem ser desgastados.
O maior erro talvez seja discutir pessoas quando o verdadeiro debate é sobre sistemas
Existe uma diferença importante entre responsabilizar alguém e compreender um problema.
Responsabilizar pode encerrar uma discussão.
Compreender é o que permite evitar que ela se repita.
Essa distinção está presente em praticamente todos os ramos do Direito.
- Quando um acidente é investigado, não basta identificar quem estava ao volante. Procura-se entender quais circunstâncias permitiram que ele acontecesse.
- Quando uma empresa entra em crise, não se examina apenas a última decisão do diretor. Analisa-se o modelo de gestão, os controles internos, a cultura organizacional e os riscos que foram ignorados.
Por que seria diferente no futebol?
Toda derrota desperta perguntas sobre jogadores e treinadores. Poucas despertam perguntas sobre instituições.
Talvez essa seja a discussão mais importante de todas.
A maior derrota de uma instituição acontece quando ela vive apenas da história
O futebol brasileiro possui uma tradição extraordinária.
Cinco títulos mundiais não pertencem ao acaso. Mas tradição e competência não são sinônimos.
A história inspira. Ela não substitui planejamento.
Nenhuma instituição permanece relevante porque um dia foi excelente. Ela permanece relevante quando continua sendo capaz de aprender, corrigir rotas e adaptar-se às mudanças sem abandonar os princípios que justificaram sua grandeza.
Essa talvez seja a reflexão mais valiosa deixada por uma eliminação. Não apenas para o futebol. Para qualquer organização.
O Direito ensina que responsabilidade não consiste apenas em responder pelos próprios erros. Consiste, sobretudo, em construir estruturas capazes de evitá-los.
No esporte, como na vida institucional, as derrotas mais difíceis não são aquelas que acontecem em noventa minutos.
São aquelas que começam anos antes e só se tornam visíveis quando já não podem mais ser escondidas pelo placar.
Precisa de segurança jurídica e governança sólida para a sua empresa ou instituição?
A Priscila Maura Advocacia oferece assessoria jurídica especializada e estratégica para proteger o seu patrimônio.



